terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Caravaggio


Outra vez abandonei o passado,
           disse-me
Os gregos não souberam onde nós levaríamos eles.
Nós, que justamente estamos na outra borda de um mar
chamado jônico ­- o que fizemos dos gregos?
Deixei meus pincéis para ti, Pietro.
Fartos de nutrirem as sombras.
           E despediu-se, sem imaginar, jamais,
que as sombras saberiam onde encontrá-lo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Mi fado

Buscando hacer lo cierto, yo erré.
Erré, concupiscente de ilusiones.
Y mismo sin codicia o pretensiones,
erré en cada paso de mi pie.

Y antes de que tú me lo menciones,
no sé si es mala suerte o mala fe.
Si estoy errando ahora, mil perdones,
que errar en otro idioma es ofender.

Yo piso en las semillas pisos fuertes
que nublan los futuros más soleados
y abren las ventanas a la Muerte.

Yo yerro. Soy errante, soy errado.
Y hay algo que susurra y me lo advierte:
"Seguir errando así será tu fado".

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eu vi Álvaro de Campos

Para Fernanda Drummond, que está de mala e cuia
  
Pouca gente sabe o que é amanhecer no Rio Comprido. Houve um tempo em que a Repartição da Flor só cultivava uma sede, na Praia de Botafogo, mas agora podemos nos orgulhar de possuir uma sede sul e uma sede norte. Pois bem, a sede norte fica no Rio Comprido. Foi naquele bairro estudantil, entre as ruas do Bispo e Itapagipe, que tivemos notícia do náufrago. Um velho cheio de garrafas estava sentado num banco de esquina e oferecia algumas cigarrilhas, quando nos aproximamos, para filarmos uma. Logo ouvimos o relato de sua história. O velho náufrago havia chegado pela borda marinha da cidade, nos arredores da Ilha de Villegaignon, ainda ameaçado por uma bronquite bacteriana, sem dinheiro, bagagem, ou destino; trazia, porque a sorte deixou, uma trouxa de garrafas ocas e um maço gordo de cigarrilhas. Indiferente ao seu próprio estado de ânimo ou saúde, tinha os olhos perdidos pelo bairro, e um meio-sorriso na cara. Nós discutíamos qualquer coisa quando o náufrago se intrometeu na conversa, sua voz rouca era um pouco tímida e seu apelo para que abríssemos as garrafas vazias veio logo em seguida. Uma sabedoria gasta sujava nossas mãos de sal, ouvi, como nos tempos remotos, canções de marinheiro e sua particular profissão de despedidas. O náufrago, na verdade, havia passado por Macaé, onde trabalhou na empreiteira de uma plataforma. Tinha o coração geometricamente partido. Percebemos bem cedo que às vezes sua cara branca se parecia com um fantasma pelas ruas do bairro. Assoviava em silêncio e espremia seu nariz e olhos como um velho catarrento. O náufrago, não tínhamos dúvida, era um bom sujeito. Imaginamos o seu vagar desolado pelos diques e isso afogava nossos corações de poeta. Ele estava desamparado e isso nos desamparava. A nostalgia do náufrago pelo continente e pelo seu amor perdido tinha pesado em nós como uma âncora, enferrujada e portuguesa; por fim deixamos o sujeito jogado à própria sorte e voltamos pra sede fumando nossas cigarrilhas. Nenhuma noite esteve tão parcamente iluminada como aquela. Na alta madruga, quando já havíamos esvaziado cinco garrafas, ouvimos um arrastar de correntes no corredor de nosso prédio e não  reconhecemos o que estava por vir. A janela aberta, de fora a fora, voltada para o morro de São Carlos a leste, do Bispo a oeste, cintilava suas lamparinas inconcisas, até que J. M. Poranga, finalmente, sacou de sua mochila aquele exemplar surrado de Álvaro de Campos, molhado de chuva, e abriu de forma aleatória. Quando a sexta garrafa estava no fim reconhecemos num soneto o mesmo nariz de velho catarrento. Ouvimos as correntes apertarem o cerco. Ali estava o náufrago de novo.  Demos um último trago e fomos dormir em meio a cambalhotas de sono, infelizmente misturando as nossas garrafas vazias com as dele. (Ainda consigo sentir o cheiro de sal fedendo naquelas garrafas). Uma penca de poetas roncavam perto da cozinha, e nós podíamos orgulhar-nos de ter ali, esticado no chão com a gente, um envelhecido Álvaro de Campos. Não pude dormir direito porque às seis o sol já me aturdia com ingratidão, naquele sofá mais ou menos confortável da sede norte, na verdade bem mais confortável que o da sede sul. Ah, maldita nostalgia marítima. Amanhecer no Rio Comprido é tropeçar nos poetas que só queriam dormir em paz.

sábado, 25 de agosto de 2012

A um canoeiro de um Rio Comprido



Se crê puro (antítese do verso)
que da alma se lhe saia calmamente
verdade última da arte, perverso
é o silêncio que te ronda e prende.


Verso: partícula (ou praia mágica)
do futuro. Que não sabemos sentir.
Futuro: esse presente ensimesmado.
Que se come e galga no verso em si.


Foi do verso que avistaram a América.
Não crê, canoeiro ou Hamlet primeiro
ou último do tempo? Agiremos nós?


Não.(É tempo!) O verso está em Greve.
Se recusa a límpido mensageiro.
E vai, nos mata, sem domingo, a sós.
 
 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

sem sentido

           Foi no enterro de dona Vívida que sua curta vida deu um salto para o entendimento do que lhe vinha na alma. A senhora que havia sido como sua mãe desde pequeno estava, pela primeira vez, com o rosto opaco e a expressão distante. Nem por isso ele deixou de sentir nas rugas da velha vizinha os sentimentos de toda uma vida, todos com histórias de que nunca ouviria notícia. Todos os anos de dona Vívida pareciam, agora, dentro do caixão, um acúmulo de histórias sentidas até o osso, que foram tampadas aos olhos de suas últimas testemunhas.
O jovem ainda não chegava aos trinta anos, mas voltou caminhando do enterro sem esquecer o rosto velho cheio de marcas com a certeza de que tinha envelhecido. Essa certeza o assustou quando olhou sua imagem no espelho. Via-se já distante dos traços infantis. No entanto, sabendo de seu envelhecimento forçado horas antes durante o enterro, não via as marcas vitais impregnando seu rosto. Sua face estava intacta, mas sem a pureza da infância. Intacta e só. Depois das cerimônias funéreas da manhã, com o sepultamento das histórias bravamente sentidas de uma humilde senhora do bairro, somadas à certeza de um envelhecimento sem marcas, ele pareceu estar tomado pelo que desde nascença o acompanhava em silêncio. Seu rosto, como sua alma, estava intacto como a face da nuvem. Ele (pensou) nunca havia sentido nada. Nunca senti nada. Ao pensar e olhar sua imagem no espelho refletida, nenhuma expressão se constituiu. Um desespero o tomou sem que seu rosto pudesse dizer. Saiu de casa ainda sem saber que não voltaria nunca mais.
Pelas ruas ele seguia sem se dar conta do caminho, quando em sua mente a vida inteira se desenrolava sem que pudesse lembrar de algum momento sentido. As pessoas passavam calorosas na rua, sempre apressadas ou aposentadas, mas com o sentimento estampado no cenho. Naquele instante, ele invejou o suicida, a dona de casa frustrada, o velho inconformado e sozinho, todos que por ele cruzavam, e que sentiam, ainda que fosse o sentimento mais infame. Pois, ele nunca sentiu nada. O mundo passava em seus olhos e ele não sentia. A vida precisava ser diferente. Porém, havia entendido, mesmo naquela manhã, o terrível destino de não possuir nenhum sentimento sobre ela E sabendo ser incontornável, decidiu, ao menos, redimir sua vida criando a aparência de ter vivido.
Decidiu sujar-se pelas ruas, com o pó e o cimento das calçadas, como um menino que brinca ou volta de uma aventura. Porém, não sentia nada. Correu do subúrbio até o mar, onde sabia ser um lugar em que se vivesse plenamente. Lá, deixou o sol violar sua pele até deixar as marcas que nos remetem a histórias que se perdem nos caminhos do corpo.  Sem que vibrasse de dentro uma sensação, ele teve a certeza de que precisaria tatuar em seu corpo qualquer instante que pudesse ter sentido em chamas. Correu para lá sem saber o que marcaria em seu corpo. Nada, no calor do segundo, remetia a uma vida cheia de sentimentos. O tatuador sugeriu uma âncora, como um marinheiro que visitou mulheres nos portos do mundo. Ele não se convenceu, porque queria algo marcante e que definesse uma vida apaixonada e muito sentida.
Foi como um milagre que lembrou de quando leu o diário de seu falecido avô, funcionário público e reconhecido poeta do bairro. Buscava retirar da memória algumas daquelas palavras do avô. Porque, agora já tinha certeza, nenhuma imagem poderia dizer melhor do que um poema tatuado no corpo. Sinal concreto de uma vida sedenta e cheia de buscas. Só um verso poderia dizer de sentimentos inqueitos e angustiantes. Ah, os poetas vivem como ninguém imagina. Ele precisava estampar qualquer marca exasperada de quem, ao menos, por um segundo sentiu.
No fim, aceitou as muitas sugestões do tatuador. E correu pela areia já embriagado. Ninguém que tenha vivido deixou de passar no botequim da esquina e embeber-se de sabedorias locais em garrafas de vidro. Lá acertou dois homens com garrafadas, violentou a garçonete ao beijá-la, cantou em cima da mesa, foi expulso pelos bêbados restantes e rastejou pela sarjeta. Porém, não sentiu nada. Já não precisava sentir, porque, naquele instante, sabia estar fazendo tudo o que, de fato, os que são impelidos pelo furor da paixão fazem quando são tocados.
Soube, portanto, que já não voltaria para casa. Para levar a cabo sua ideia de redimir sua vida, não bastava ter versos marcados na pele e viver embriagado e ter o rosto de um cão sarnento. Ele precisaria, se quisesse esconder para sempre seu íntimo segredo de insensibilidade, cometer, à luz do dia, suicídio. Só assim, na hora de seu enterro, pensariam: “A vida para ele foi dura e sentida. Esse sentiu as mazelas da vida. Foi um aventureiro maldito...”. Quando, consciente de tirar a própria vida para torná-la grandiosa, ele chorou verdadeiramente por não sentir coisa alguma. Sua decisão foi indolor. Seu coração permaneceu intacto e, durante horas, observou os adolescentes apaixonados na areia, os hippies nômades, até os homens que moravam na rua e vendiam suas pequenas artes, e os viajantes maravilhados com o paraíso do Rio. Todos tinham histórias dos seus sentimentos nos olhos. Exceto ele, que a tudo olhava.
Do alto da ponte Rio-Niterói, ele lembrou do avô poeta e de todos os que viveram com a intensidade do trovão. E que, se ele não pôde sentir, fez num dia o que muitos fizeram verdadeiramente. No parapeito da ponte houve, porém, algo com que não contava. Do carro, algum jovem apaixonado gritou para assustar o suicida que, em vez de cair ao mar, quedou-se na pista com a face mais amedrontada do mundo. E, no meio dos carros, cumpriu-se sua pequena obra.
No dia seguinte ao enterro de dona Vívida, enterrou-se o menino que ela criara com muito apreço por sua família. O jovem de morte prematura fez com que toda a rua comparecesse à cerimônia. Todos certos de que ele era um herói de alguma tragédia cotidiana. Alguém que muito vivera. Porém, enterrou-se junto com ele um segredo que ninguém desconfiaria. Sua verdadeira história morreu silenciosa e sem notícia. Um jovem poeta com treze tatuagens, bêbado e com marcas de batom e sangue nas pontas dos dedos, sujo e marcado de sol. Qualquer um que morresse assim seria visto como quem viveu feito louco. Nenhuma das mil histórias acerca de sua morte diria que a vida por ele passou incólume.
Porém, quase tudo havia dado certo para o jovem insensível. Não fosse o terror na hora de sua morte, diante de um caminhão, tudo seria como o esperado e ele não morreria com a face completamente contorcida, que ninguem no velório evitou. Ele foi enterrado com a cara mais patética do mundo, daqueles que morrem ao temer uma barata.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Facebook

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domingo, 1 de julho de 2012

A força ética da literatura (Silvia Avallone)


Creio que na Itália, nestes últimos anos, tenha se produzido uma pequena e jubilosa revolução: em muitos jovens autores tem sobrevido um apaixonado apego pela realidade. Nós, os nascidos nos anos oitenta, alimentados de pão e televisão, bombardeados com todo tipo de reality shows, de ficções, com as luzes artificiais dos estúdios de TV, temos tido um apetite grande de rebeldia; fomos até a janela e vimos que os acontecimentos fora da telinha, à luz do sol, eram muito mais interessantes. Temos saído de nossas casas e começado a observar o que acontece nas ruas, nas praças, nos bares, nas fábricas, nas empresas de telefonia. Temos suspeitado a diferença que há entre este país vivo e real e aquele que contam pela televisão. Temos constatado o silêncio em que vivem relegados os trabalhadores, as periferias, os desempregados, a província, e temos decidido interrogar a realidade para tratar de entendermos algo. Nós temos sujado as mãos com a matéria do mundo e esse gesto nos tem entusiasmado. Nos fez sentir vivos, na verdade. Após anos de sopor temos despertado.
A literatura não está separada da vida, necessita dela. E também a realidade necessita da literatura. Na Itália, uma geração inteira abandonada pelo mundo do trabalho, confinada num presente sem futuro, tem decidido que as palavras podem ser um instrumento para nos reapropriarmos desse futuro, para alterar o presente, para dar voz ao país que vive, que vibra, que grita longe da televisão. E assim têm nascido livros sobre o crime organizado, sobre a precaridade da juventude, sobre jovens trabalhadores, sobre o quão difícil é crescer sem contar com pontos de referência estáveis, sem a perspectiva de um trabalho duradouro, sem a possibilidade de converterem-se em adultos e independentes; não apenas os filhos, mas também os pais. Esses livros possuem uma energia inédita, uma língua nova e cheia da adrenalina da realidade, com seus vínculos dolorosos, com sua aspereza e vitalidade.
Escrevi Acciaio (Aço) porque estava furiosa, porque estava a ponto de me formar, e já sabia que uma licenciatura em Letras não me levaria a parte alguma, porque via meus colegas deambularem de um trabalho provisório pra outro sem qualquer perspectiva, porque via a província em que nasci esvaziar-se de jovens e de oportunidades de trabalho; precisava opor uma história a este silêncio ensurdecedor. As siderúrgicas que tinha ante meus olhos eram o lugar mais potente que podia encontrar para narrar; ali estava a beleza cujo caminho se tentava retomar: a verdadeira beleza, da vida fatigada, que cria e não se rende. Porque os jovens que desafiam o carbono, o ferro e as altas temperaturas dos fornos precisam ser conhecidos, escutados e amados; porque as moças como Anna e Francesca devem ter uma oportunidade, outra possibilidade que não seja a de venderem sua própria beleza.
Os leitores possuem tanta sede de realidade quanto os escritores. Nas livrarias, na internet, nas palestras, se observa um enorme desejo de falar, de refletir. Já não temos as ideologias dos mestres dos anos sessenta, penso nos Pasolini, Calvino, Moravia, em Morante; nem podemos contar com os sonhos de nossos avôs que reconstruíram a Itália sobre os escombros deixado pelo fascismo e pela guerra. Mas talvez, e por nos acharmos precisamente carentes dessas ideologias, possamos entrever a realidade sem forçá-la com esquemas pré-estabelecidos. Estamos obrigados a forjar sonhos novos, a partir do zero, e esta nossa paixão porquanto acontece ante nossos olhos é uma renúncia ao individualismo. Contarmos como é o mundo em lugar de contemplarmos o umbigo é já uma mudança de sentido para uma nova dimensão comum. Tenho visto como os livros podem fazer com que as coisas aconteçam realmente, como as novelas podem caminhar pelo mundo através dos leitores, fazendo-os mudar o ponto de vista, removerem conceitos e preconceitos. Creio não apenas na força artística e estética da literatura, mas também na sua força ética. Temos deixado de estar quietos, de ser passivos, indiferentes. Escrever histórias que afetam a todos tem sido nosso primeiro ato de guerra contra a indiferença.

Tradução nossa. Silvia Avallone (naceu em Biella, Itália, 1984)

sábado, 26 de maio de 2012

Maio



Revejo Maio triunfante.
E na janela a paisagem
emudecendo.


    

                                  
                                                                  Foto de Elis Spyker

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Carta para um amigo distante

Rio de Janeiro, abril 2012
meu terno amigo,
amanhece no Rio e não há chance de perdermos o voo pra Fortaleza. É por isso que escrevo muito rapidamente esta carta, quando hoje completam seis anos de tua estadia entre o Peru e a Bolívia. Ainda não pude desfazer as malas nem a papelada que você deixou pra trás. Porque me parece ontem quando lembro de você partindo, feito um menino com aquela mochila enorme nas costas, sem saber uma palavra de castelhano. É muito certo que você tenha feito o que fez. Mas nos deixou sem palavras por pelo menos dez meses, quando o João Pedro parou de escrever sonetos. A verdade é que esta casa se partiu daquele dia em diante, junto com você, quando acreditávamos que você partiria pra África apenas muito tempo depois. Hoje quando retorno, todos os anos, pra Ouro Preto eu busco enfim minha consolação no barroco. Imagino que hoje teus sonhos estejam entremeados de Calderón, quando na época apenas começava a descobrir tudo através de Lezama. E principalmente com sua primeira visão da Catedral de La Paz por dentro. Minha chance é me aproximar do que considero mais íntimo, que é Ouro Preto, apesar da Bahia e de Pernambuco. É assim que converso contigo. Sem dizer que nunca mais pude ouvir uma canção de gaita, talvez, sem recordar tua jaqueta empoeirada no caminho pro sul e aquela BR cheia de buracos e planícies. Tinha mesmo o dom precioso de usar a gaita como resposta ao teu coração. Ele mesmo é quem cantava, ela ouvia. Meu querido amigo, imagino quanto não tenha se desgraçado entre os muros das cidades velhas, mas espero, confessadamente, que não tenha se perdido do amor. Quando estávamos naquela esquina do maracanã e você recitou “quero me casar”, do terrível Carlos, uma mulher levantou-se aos brados de  Eu caso. A mensagem, entendo hoje, é dura demais, meu adorado amigo. Há muito pouco amor no mundo e todos apenas representam a comédia da sede. Faltam violetas e trovões. Eu juro que aboli todo sonho apocalíptico do amor, não é isso, não é. Mas como estamos descrentes do coração e como todos repreendem as tempestades! Eu nada mais sei, a partir daí. No entanto suas palavras ressoam toda vez que me vejo naquela tarde chuvosa na rua do mercado, presente como uma ruína dessas que você atravessa todos os dias nessas cidades velhas. Parecia gritar com os olhos e depois com a boca: estamos destroçados, mas nossa sina é construir. Por isso me preocupo e caio em febre quando imagino você perdido, não entre os muros de Cuzco ou Tiahuanaco, mas entre as planícies do teu coração solícito. Ouvir uma gaita nunca mais será a mesma coisa, nem será mais real do que minha ideia de gaita após atravessar o condado de Yoknapatawpha. Porque o teu casaco empoeirado continua vestindo algum viajante, em algum lugar. Eu sei que poderíamos ter estado em qualquer cabaré russo da década de 10, poderíamos inclusive ter saldado as contas com a esperança, caso tivéssemos visto o que se sucederia ao cabaré e à década de 10, sobretudo se morrêssemos prematuramente. Mas como latino-americanos a nossa ideia de esperança nunca poderá desligar-se do Eldorado, tão caro ao povo daqui e daí. Como latino-americanos o paraíso, definitivamente, não poderá se forjar aos moldes ingleses ou da Igreja ou do Islã. Estamos agarrados à terra. E os numerosos mapas em que desenharam o Eldorado se perderam ou se refizeram, na medida da imaginação dos cartógrafos. Portanto aos poucos venho descobrindo o que você talvez, desgraçadamente, continua procurando entre as ruínas das cidades velhas. Meu irmão preto, não deixarei de reler a última carta em que você reescrevia à lápis, há cinco anos, o coração dos poemas náuatles e os do rei místico Netzahualcóyotl. No fim de um deles, anotado aos dentes: não deixar o coração morrer. A mágoa, no entanto, é severa. Quando pressentir novamente os teus passos na praia de Botafogo? Onde, senão aos pés de Yoknapatawpha ou do Aleijadinho, ouvir teu murmúrio contra os ofendidos? Em que terreiro eu tocarei os santos ausentes se você mesmo estiver ausente? Uma vez disseram que a vida é a sombra de um sonho. Talvez. Mas é tudo o que temos, e hoje mesmo, mais tarde, em Fortaleza, olharei o Atlântico sabendo que você estará olhando o Pacífico e tudo se acertará entre nós. Do teu para sempre J. A.

sexta-feira, 2 de março de 2012

o pintor


▒▒▒Agora tudo não passava de um sonho. Mas era como se um feixe estivesse dentro dos olhos que cintilavam enormes. Porque agora ainda estava parado pulsando como uma pedra. Um feixe enorme que dentro dos olhos parecia deixá-lo num estado tão inflexível e sem brilho. Os olhos ardiam opacos. Agora não se poderia distinguir o dia ou a noite; embora não se pudesse distinguir também as cadeiras que se espalhavam em derredor, ou as muitas cores que se formavam numa única, ou as sombras que se misturavam aos feixes iluminados que misteriosamente habitavam o cômodo onde agora seus olhos pareciam impenetráveis. Porém, ele não conseguia reparar - mesmo completamente consciente com uma consciência que se adquire tão inconscientemente, lúcido e tão clarividente, dum clarão em seus olhos que se diria ser de um visionário sondando o futuro – com aquela consciência que desperta ao respirar a morte ele não conseguia distinguir o espaço impregnado. Mesmo tão consciente ele não conseguia saber de si mesmo naquele espaço indistinto. Mesmo naquele instante ele alcançava alguma coisa com os olhos. Alguma coisa indistinta. Agora, ele soube com um respiro seco e assustado “não, não, oh deus, não”; nada podia, entretanto, distinguir seus pensamentos naquele espaço. Eles ficariam indistintos entre os sons que se acumulavam inteiramente robustos na incrível longitude daquele agora. “Ah deus, sim, sim, eu vou”.
▒▒▒(De repente, como a luz vencesse as trevas e a memória fosse um descampado vasto em que se caminhasse inteiro: agora. Ele entrava no ateliê sozinho, tremendo quase feito a terra. Sua mão ficava em cada objeto, em cada paleta, em cada amarelo quedando lentamente ao chão como uma lágrima do sol. Ele espalhava as tintas, as jogava sobre as telas em branco daquele instante. Quase destruiu todo o quarto como se destruiria para sempre no instante após. As cores todas num revolto mar, e o vento eram suas mãos. Sem tinta, porém, seus olhos pingavam um sentimento pálido. Ele já não queria mais saber das cores, apenas lançava, agora, uma música horrível em gritos de maldição que regia como um maestro louco. Aquele agora foi completamente esgarçado pelo tremor daquele homem. Tanto foi que ainda (o agora) está em aberto como uma cicatriz crua e sem cores. Ele estava cego. Permaneceria completamente escuro, sem jamais chorar em colorida visão novamente. As coisas se confundiam agora numa queda vertiginosa. Aquele que fizera o mundo em cores que o próprio mundo desconhecia estava destinado ao silêncio de um preto profundo. Já não cantaria no azul rasgando o céu, a imensidão das árvores, como uma banda, na sinfonia verdamarela da dança íntima com o sol, o mais antigo pintor. Estava, agora, caído no chão. Pois, se já não via mais, então, ele sentiria o gosto mais íntimo de tudo com essa fome intragável, que já não podia ser saciada. Apagadas as cores da vida, ele comia o vermelho de tudo o que já vivera entre os olhos e as mãos. O lilás descia pelo corpo lírico quanto um crepúsculo elegíaco. Como um bêbado que a cada copo busca o sabor há muito perdido, ele engoliu todas as tintas de seu ateliê, saboreando cada sentimento que deixava para trás. Estava feito. Tudo se escoara e a tela estava em branco novamente como sempre esteve, embora ele lutasse como o sol que mesmo sabendo que a noite sempre virá com seu império inconciliável, a cada dia luta. Agora, ele estava no chão com olhos enormes sem distinguir mais o mundo; naquele brilho fascinante, impenetrável para qualquer um que o visse. Nenhuma palavra ou cor poderia saber do que ele viu naquele momento. “Não, não, oh deus, não”. Agora, ele estava sem sorrir ou chorar; tudo passava tão vertiginoso e sem distinção que ele soube do sonho colorido que vira tão brevemente, embora visse agora tão mais brevemente e sem distinção. Mas, agora, como num milagre perfeito, as cores paravam daquele carrossel absurdo e ele podia ver tudo claramente, sem borrão, pois, agora, tudo parecia tão perfeito e a luz resplandecia ultrapassando o destino de seus olhos e mesmo as cores pareciam novas e nunca antes vistas, como cores mágicas e delirantes. Então, ele finalmente viu uma pintura profética que um homem vê uma ou duas vezes na vida. Ele viu perfeitamente e foi. “Ah deus, sim, sim, eu vou”.)