quinta-feira, 5 de abril de 2012

Carta para um amigo distante

Rio de Janeiro, abril 2012
meu terno amigo,
amanhece no Rio e não há chance de perdermos o voo pra Fortaleza. É por isso que escrevo muito rapidamente esta carta, quando hoje completam seis anos de tua estadia entre o Peru e a Bolívia. Ainda não pude desfazer as malas nem a papelada que você deixou pra trás. Porque me parece ontem quando lembro de você partindo, feito um menino com aquela mochila enorme nas costas, sem saber uma palavra de castelhano. É muito certo que você tenha feito o que fez. Mas nos deixou sem palavras por pelo menos dez meses, quando o João Pedro parou de escrever sonetos. A verdade é que esta casa se partiu daquele dia em diante, junto com você, quando acreditávamos que você partiria pra África apenas muito tempo depois. Hoje quando retorno, todos os anos, pra Ouro Preto eu busco enfim minha consolação no barroco. Imagino que hoje teus sonhos estejam entremeados de Calderón, quando na época apenas começava a descobrir tudo através de Lezama. E principalmente com sua primeira visão da Catedral de La Paz por dentro. Minha chance é me aproximar do que considero mais íntimo, que é Ouro Preto, apesar da Bahia e de Pernambuco. É assim que converso contigo. Sem dizer que nunca mais pude ouvir uma canção de gaita, talvez, sem recordar tua jaqueta empoeirada no caminho pro sul e aquela BR cheia de buracos e planícies. Tinha mesmo o dom precioso de usar a gaita como resposta ao teu coração. Ele mesmo é quem cantava, ela ouvia. Meu querido amigo, imagino quanto não tenha se desgraçado entre os muros das cidades velhas, mas espero, confessadamente, que não tenha se perdido do amor. Quando estávamos naquela esquina do maracanã e você recitou “quero me casar”, do terrível Carlos, uma mulher levantou-se aos brados de  Eu caso. A mensagem, entendo hoje, é dura demais, meu adorado amigo. Há muito pouco amor no mundo e todos apenas representam a comédia da sede. Faltam violetas e trovões. Eu juro que aboli todo sonho apocalíptico do amor, não é isso, não é. Mas como estamos descrentes do coração e como todos repreendem as tempestades! Eu nada mais sei, a partir daí. No entanto suas palavras ressoam toda vez que me vejo naquela tarde chuvosa na rua do mercado, presente como uma ruína dessas que você atravessa todos os dias nessas cidades velhas. Parecia gritar com os olhos e depois com a boca: estamos destroçados, mas nossa sina é construir. Por isso me preocupo e caio em febre quando imagino você perdido, não entre os muros de Cuzco ou Tiahuanaco, mas entre as planícies do teu coração solícito. Ouvir uma gaita nunca mais será a mesma coisa, nem será mais real do que minha ideia de gaita após atravessar o condado de Yoknapatawpha. Porque o teu casaco empoeirado continua vestindo algum viajante, em algum lugar. Eu sei que poderíamos ter estado em qualquer cabaré russo da década de 10, poderíamos inclusive ter saldado as contas com a esperança, caso tivéssemos visto o que se sucederia ao cabaré e à década de 10, sobretudo se morrêssemos prematuramente. Mas como latino-americanos a nossa ideia de esperança nunca poderá desligar-se do Eldorado, tão caro ao povo daqui e daí. Como latino-americanos o paraíso, definitivamente, não poderá se forjar aos moldes ingleses ou da Igreja ou do Islã. Estamos agarrados à terra. E os numerosos mapas em que desenharam o Eldorado se perderam ou se refizeram, na medida da imaginação dos cartógrafos. Portanto aos poucos venho descobrindo o que você talvez, desgraçadamente, continua procurando entre as ruínas das cidades velhas. Meu irmão preto, não deixarei de reler a última carta em que você reescrevia à lápis, há cinco anos, o coração dos poemas náuatles e os do rei místico Netzahualcóyotl. No fim de um deles, anotado aos dentes: não deixar o coração morrer. A mágoa, no entanto, é severa. Quando pressentir novamente os teus passos na praia de Botafogo? Onde, senão aos pés de Yoknapatawpha ou do Aleijadinho, ouvir teu murmúrio contra os ofendidos? Em que terreiro eu tocarei os santos ausentes se você mesmo estiver ausente? Uma vez disseram que a vida é a sombra de um sonho. Talvez. Mas é tudo o que temos, e hoje mesmo, mais tarde, em Fortaleza, olharei o Atlântico sabendo que você estará olhando o Pacífico e tudo se acertará entre nós. Do teu para sempre J. A.

4 comentários:

Henrique disse...

Que coisa mais bonita João. Quase uma prece de se ler assim bem corrido como quem olha uma espécie de mapa. Com carinho. Henrique.

Cassiana Lima disse...

"Como latino-americanos o paraíso, definitivamente, não poderá se forjar aos moldes ingleses ou da Igreja ou do Islã. Estamos agarrados à terra." ISSO FICOU BONITO POR DEMAIS. DEMAIS, JOÃO. BJS, CASSI

lulu disse...

A carta é ouro de mina. Como aquela que visitamos e ouvimos contarem histórias, em nossa antiga capital.

Lara das Letras disse...

Que lindeza! Não me canso de ler.