terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eu vi Álvaro de Campos

Para Fernanda Drummond, que está de mala e cuia
  
Pouca gente sabe o que é amanhecer no Rio Comprido. Houve um tempo em que a Repartição da Flor só cultivava uma sede, na Praia de Botafogo, mas agora podemos nos orgulhar de possuir uma sede sul e uma sede norte. Pois bem, a sede norte fica no Rio Comprido. Foi naquele bairro estudantil, entre as ruas do Bispo e Itapagipe, que tivemos notícia do náufrago. Um velho cheio de garrafas estava sentado num banco de esquina e oferecia algumas cigarrilhas, quando nos aproximamos, para filarmos uma. Logo ouvimos o relato de sua história. O velho náufrago havia chegado pela borda marinha da cidade, nos arredores da Ilha de Villegaignon, ainda ameaçado por uma bronquite bacteriana, sem dinheiro, bagagem, ou destino; trazia, porque a sorte deixou, uma trouxa de garrafas ocas e um maço gordo de cigarrilhas. Indiferente ao seu próprio estado de ânimo ou saúde, tinha os olhos perdidos pelo bairro, e um meio-sorriso na cara. Nós discutíamos qualquer coisa quando o náufrago se intrometeu na conversa, sua voz rouca era um pouco tímida e seu apelo para que abríssemos as garrafas vazias veio logo em seguida. Uma sabedoria gasta sujava nossas mãos de sal, ouvi, como nos tempos remotos, canções de marinheiro e sua particular profissão de despedidas. O náufrago, na verdade, havia passado por Macaé, onde trabalhou na empreiteira de uma plataforma. Tinha o coração geometricamente partido. Percebemos bem cedo que às vezes sua cara branca se parecia com um fantasma pelas ruas do bairro. Assoviava em silêncio e espremia seu nariz e olhos como um velho catarrento. O náufrago, não tínhamos dúvida, era um bom sujeito. Imaginamos o seu vagar desolado pelos diques e isso afogava nossos corações de poeta. Ele estava desamparado e isso nos desamparava. A nostalgia do náufrago pelo continente e pelo seu amor perdido tinha pesado em nós como uma âncora, enferrujada e portuguesa; por fim deixamos o sujeito jogado à própria sorte e voltamos pra sede fumando nossas cigarrilhas. Nenhuma noite esteve tão parcamente iluminada como aquela. Na alta madruga, quando já havíamos esvaziado cinco garrafas, ouvimos um arrastar de correntes no corredor de nosso prédio e não  reconhecemos o que estava por vir. A janela aberta, de fora a fora, voltada para o morro de São Carlos a leste, do Bispo a oeste, cintilava suas lamparinas inconcisas, até que J. M. Poranga, finalmente, sacou de sua mochila aquele exemplar surrado de Álvaro de Campos, molhado de chuva, e abriu de forma aleatória. Quando a sexta garrafa estava no fim reconhecemos num soneto o mesmo nariz de velho catarrento. Ouvimos as correntes apertarem o cerco. Ali estava o náufrago de novo.  Demos um último trago e fomos dormir em meio a cambalhotas de sono, infelizmente misturando as nossas garrafas vazias com as dele. (Ainda consigo sentir o cheiro de sal fedendo naquelas garrafas). Uma penca de poetas roncavam perto da cozinha, e nós podíamos orgulhar-nos de ter ali, esticado no chão com a gente, um envelhecido Álvaro de Campos. Não pude dormir direito porque às seis o sol já me aturdia com ingratidão, naquele sofá mais ou menos confortável da sede norte, na verdade bem mais confortável que o da sede sul. Ah, maldita nostalgia marítima. Amanhecer no Rio Comprido é tropeçar nos poetas que só queriam dormir em paz.

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