domingo, 5 de setembro de 2010

Em alguma parte alguma


Outro dia li uma entrevista com Ferreira Gullar. Descobri que aos 23 anos, após escrever A Luta Corporal, ele achou que nunca mais faria poemas. Creio que muitos poetas passem por isso na juventude, principalmente após a sua própria Estação no Inferno. Mas não foi o que se deu, e nesta semana pude ir ao lançamento do novo livro Em alguma parte alguma, quando o autor completa 80 anos. Dividido em 4, você acaba se perdendo entre a rua Duvivier, o cemitério São João Batista, uma remota quitanda no Maranhão e assim vai. Aliás, Ferreira Gullar nunca despista os lugares, as datas, os nomes; parece que se recusa a dizer que algo ali é fictício, pois são invenções. Na entrevista ele também falou sobre isso "a vida é inventada", como costuma repetir. Não faz muito tempo que passei a valorizar essas frases repetidas (de qualquer um com mais ou menos a sua idade), em geral elas falam de um aprendizado que está muito longe das palavras, mas do qual, mesmo assim, qualquer palavra acaba sendo uma pista. "A vida é inventada", só me faz pensar numa descoberta repentina de alguém que sempre tentou imaginar saídas para os homens e para os seus próprios versos, talvez alguém que tenha convivido com a mentira também, e o acaso. Certa vez, creio que num dia de Junho, eu e Flamboyant passamos a madrugada bebendo cabernets bastante baratos, falando banalidades, principalmente sobre bebidas e aspirações. Quando estava perto de amanhecer ele voltou para a sua casa. Na manhã seguinte fui ler o jornal e descobri que haviam dado o golpe em Honduras, cheguei assustado na faculdade e ao revê-lo eu disse "Você ficou sabendo? Em Honduras...", ele estava meio atordoado mas respondeu "É, estou sim, e tudo isso enquanto bebíamos vinho". Bem, talvez algo semelhante tenha ocorrido a Ferreira Gullar quando saiu da rua senador Eusébio, com aquele punhado de Jasmins, e chegou à rua Duvivier; quem sabe lá não passou por uma banca de jornais e relembrou os mísseis que caíam sobre Bagdá ao mesmo tempo que as folhas do jasmineiro sobre a calçada. Essa é a impressão que tenho dos poemas de Ferreira Gullar, que nascem assim: quando atravessa um bairro ou a porta do banheiro. O seu estilo também flui (calmo, veloz), como aqueles pensamentos que deslizam e logo se despedem enquanto caminhamos na cidade. É como se estivéssemos Um pouco acima do chão, para citar o nome de seu primeiro livro, que num segundo nos faz admirar a paisagem para no outro cairmos do quinto andar de uma esperança. Não tem mais como passear nessas ruas escritas sem lembrar dele, assim como é impossível ler nas revistas, na internet, os nomes científicos de galáxias longínquas sem pensar também no seu observatório particular, que deve ser uma janela tão anônima como qualquer outra. Sobre a Estação no Inferno, aos 23 anos o poeta mal imaginava que ela deveria se dar duas décadas depois, no exílio. Todos nós já a conhecemos, principalmente pelo Poema Sujo, e por causa dela é que dói neste livro o penúltimo "Volta a Santiago do Chile", onde a passagem do tempo fica tão asfixiante quanto um gás de cozinha imperceptível. A vida é inventada, e os homens não param de inventar. Hoje novos exilados se espalham saindo de Honduras, em São Luís corre uma rua com o seu nome e, além disso, qualquer pessoa que naquela época tenha guardado um cabernet barato como o meu, hoje terá em sua adega um precioso 40 anos.

5 comentários:

Marlon disse...

Gullar virou vinagre.

lulu disse...

A passagem do tempo está mesmo em toda obra dele; ela também percorria o dentro da noite veloz de maneira brutal.."ernesto che guevara é chegada tua hora..."
E a crônica está muito bonita, uma jóia, como sempre!
Viva Gullar!

josé agapanto disse...

Não falei do poema para o Rilke, que é lindo, mas não importa...

Vinicius disse...

"(...) além disso, qualquer pessoa que naquela época tenha guardado um cabernet barato como o meu, hoje terá em sua adega um precioso 40 anos." Vale a pena repetir. Muito bom!

josé agapanto disse...

Obrigado Vinicius.