terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A emocionante formatura do amigo poeta Jimmy Charles Mendes, certo verão, na Faculdade de Letras da UFRJ.


Então disse o sol:
“Bem, cá estamos, meu velho.
Tu e eu formamos uma dupla.
Voemos, poeta,
à altura das águias.
Cantemos
para espantar as trevas do mundo.
Eu derramo luz
e tu outro tanto fazes
esparzindo teus versos”.

(Maiakóvski)


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Menor poema

Pernambuco, o que digo que já não disseste
no ribombo da alfaia, em voz republicana?
Teu céu? Talhado à faca de incontáveis preces
por teus filhos de barro, pranto, honra e cana?

Tua noite? Seguida pelo Caçador
(uns dirão, pra matá-la, e outros, por amor)?
Tua manhã? Degredo de estrela e fanal?
O nó cego no peito ao se ouvir o "imortal"?

Inevitável, já, deixar que tu me invadas
como o sabor e o beijo e as novas palavras...
Desnecessário, já, dizer que tu venceste.

Não me cabe medir na arte as tuas plagas.
Impossível meter num verso as tuas águas
aquentadas, saladas: entes do ser Leste.

domingo, 20 de dezembro de 2009

"Porque pulsa do amor a dura prova..."

Para Elis

Porque pulsa do amor a dura prova
vai pungir no poema a pena firme.
para seguir com o rio que renova
e de novo, entre as águas, o afirme!

Se livres somos nós e eu quero tudo
quanto pode um ser errante. Mas
se escrevo um verso esparso e mudo
é só para entregar-te pleno. Mas

se rompe em chuva fria o desconcerto
de Camões, de toda a humanidade,
sem saudades da vida venho certo

da letra desenhando eternidade
no céu rubro. Do Verbo concertado.
Tê-la, então, no presente, do meu lado.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sobre Marc Chagall

Uma noite russa caiu sobre o violino,
de súbito
estavam íntimos cegos e noivos.
Apenas ele seguiu vermelho,
sem doer um verso,
amou.

Pendia da lua o violinista:
– pareceu-lhe mágico e mudo como um salto de bailarina.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

Ovalle, irmãozinho; a noite fechou como um piano cansado. Da janela, estive olhando: a saleta de orquestra, allegro das luzes no bonde, o poste. Até o gato de rua sabe fazer esse caminho de ferro, que o bonde faz (esquece) e vai seguindo, seguindo. Você também não parou, irmãozinho - foi. Depois, o gole deixou num gordo a impressão de Haydn, ele só passava; “meninos” – a senhorinha – “este é aquele Minuetto, vale nota”. Para o músico da saleta, Haydn era um enigma sem mistério (para você foi mistério somente). Da janela, estive olhando: o amarelo do poste vira uma estrela de madrugada; foi você? sei que os poetas carpiram, o samba quebrado rolou e até a Marrecas foi ninho (para duas mocinhas). Viver é coisa grande.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Licores

De vez em quando, a estante dos licores
afasta o bom rabino dos louvores
e arrisca a gola branca a novas cores.
Uns cálices depois, certos horrores

vernáculos das mentes de senhores
gentis demais às damas nos favores
escapam. São suspiros, são calores
fingidos, sob a rolha, de sabores

de frutas e ervas finas. Pois imunes
aos anos, apurando seus queimores,
as caldas melindrosas dançam tango

nas vulvas vidraçadas com os numes,
que ganham vida e tomam corpo quando
o bom rabino as vem amar. Licores.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Soneto para um novo amor

Distante dos meus deuses naturais,
temendo ter traído minha pátria,
por blocos de antiquados carnavais
errei, mas quem assim já não errara?

Sentei-me à beira-mar e tive um frio
que foi como se eu não vestisse nada.
Na orla, à noite, mil luzes do Rio
dançavam com as ondas e eu chorava.

Mas quem já não morrera assim, amigos?
E quem já não jurara à lua clara:
- Jamais um novo amor será cantado!

Só sei que algum calor aos arrepios
pôs fim e um querubim da Guanabara
secou meus olhos. Eu jurava errado.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Soneto acrescido de um verso branco (ou Amor em dialética)

Tudo quanto acresce faz crescer. Transforma,
no brindar dos corpos, e deforma e mata,
a conformidade duma antiga forma,
dando luz a novas, netas da passada.

Essas somas nos dão sempre um certo dó,
confundindo à força o que é de dentro e o fora:
dores de fornalha, de martelo e mó
que vão duvidar se é benfeitora a soma.

Mas se tudo quanto assoma fere e muda
o horizonte e a ilha de antes de somar,
a fusão das partes logo arvora uma
recriada praia, que esmerada e forte,

será tão plural quanto for singular.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

um diálogo com a tradição


Na foto, Jaime Ovalle, Otto Lara e Vinicius; alguns de nossos padrinhos. E muito tempo passou...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

poema dedicado aos que têm pesadelo com o Diabo e acordam chorando

- aos que vencem fantasmas.

prólogo.

não temos de Deus Seus planos
e, humildes, ajoelhamos
sem cobertas, no afefé.

capítulo único.

se Deus soubesse que andamos
errados atrás do ramo
que nos jurou ver, Noé,

se o Nome entendesse a luta
exaustiva, a busca injusta
que mesmo sem Ele é fé,

se o Pai atestasse o horror
da gente ao perder o amor
na viração da maré,

se Deus soubesse das idas
sem volta e das penedias
que falsam de senda e sé,

se Ele soubesse a distância
entre a pólvora e a criança
(vilões, fizemo-la ré),

ah, se soubesse descia
das constelações e vinha
caber na praça o Seu pé!

sentava à mesa e pedia
nossa cachaça e dizia:
- meus filhos, sei bem como é.

epílogo.

mas de Deus não temos planos
e, aflitos, todos rezamos,
ouvindo os ais do acaé.

domingo, 28 de setembro de 2008

chambre vie

"Damas, cavalheiros, senhoras, senhores, crianças, boa noite! Nós somos A Repartição da Flor..."

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Poemática

Apresentação da Repartição da Flor
Poemática - Dia 24/09, quarta - 18hrs
Galeria de Artes do ICHF
Campus do Gragoatá da UFF, bloco O, térreo
Praça Leoni Ramos, s/nº - Gragoatá - Niterói

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Para Luciana

Às margens do guamá
certa madeira encravada
originária
eram árvores derramadas de chuva
e à sombra
era você
se derramou em mim
esparramou nas costas
engoliu dedos, rompeu o cacto e a rocha
em mim
eram meus olhos
que se abriam ao céu maior de suas mãos
corriam miúdos
pela carne
para lembrar seu gesto
formatando sonho num luar
amarelado e negro
de esperança e ardor
eu esperei a angústia daqueles barcos
emudecidos da ilusão da morte
apalpando o rio como a um templo
vagarosos
e a sua espera arroteou
tudo o que em mim era aperto
fazendo pressa onde foi lago
penetrando meus dedos
na espuma aérea, envolta
enevoada de nossa margem
choramos do mesmo rio
a mesma água
abrimos do mesmo beijo
uma ferida e da sombra tão esparsa que nos cobria
partimos como pães a luz de um astro
para o tempo geral de nossos dias.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

ao Uísque Teacher's

Prezado Professor,
a Academia têm me trazido uma boa margem de considerações sobre a literatura, tenho acordado às terças e quintas pontualmente às 6:15 da manhã e não bastasse tal exercício de comprometimento tenho aprendido declinar o latim, dissociar a lingüística gerativista da cognitiva e sobretudo tomar conhecimento da ordem de efeitos da estrutura curricular. No entanto é com certo misto de desgosto e alívio que venho encaminhar esta carta escrita à v.s.ª.
Permita-me apresentar o momento que de ti pude tomar notícia, foi em um mercado na serra. O dia estava bem acordado, usávamos, comos os antigos, lenços vermelhos no pescoço e fui apresentado à vossa senhoria, com gelo. Num primeiro momento acreditei na ilusão adolescente do alumbramento sublime, sorte que depois constatei ser uma veracidade. As gramáticas descritivas e normativas não me ensinaram a ti, mas a serra sim, porque no frio de um hotel Avenida, frente a igreja de Santa Tereza em Teresópolis eu aprendi a verdade da pedagogia universal. Você foi carinhosamente sustentado pela estrada de Petrópolis, até uma casa no Centro histórico, bebido numa biblioteca justo em meio a nossa apresentação, e só foi terminar na Casa do sol, casa macia do Sol, que nos disponibilizou shampoos e camas de casal. Assim você acabou: aparentemente; pois a impressão que nasce desta garrafa bibliófila é que o conhecimento e a erudição após descerem ao fígado tornam-se irrecuperavelmente eternos.
Amigo Professor, a conclusão final destas linhas em onda é um termo de agradecimento pelo horizonte ao avesso que me trouxeste frente ao gosto da Academia, trazendo a esta virada de julho pra'gosto um vívido sabor de carvalho embarrilzado.
Professor, com terno agradecimento, volte Sempre.

01/09/2008 - Ao primeiro mês de aniversário da garrafa, deixo esta carta com saudade.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

um dia no camping do seu ageu

beber da boca da manhã
brisas frescas de amendoeira

pescar nos ombros da pinga
hibiscos da praia do sono

à tarde catar fogueira
à noite assar uma história:

"A rede do céu pega mais
que todas as redes ao mar..."

domingo, 31 de agosto de 2008

Moça do sapatinho de laço

Não é pelo rosto, certo pássaro, racifero,
ocelote d'água. Pelo sorriso que insurge
como a estrela que insurge, não é.

Não é pela madeira desfiada,
cachoeira sobre os ombros,
que vela a espádua se a noite velar a fuga. Não é.

Tampouco seria pela cintura,
antitese de seio e quadril,
teu equador de ampulheta.

Menos ainda pelos seios, seios, seios, seios...
quadris, quadris, quadris, quadris,
que são o Tempo.

Nem pelas pernas sem roupa,
melhores amigas da praia,
pintadas à cor dos olhares.

(Giras o mundo quando te locomoves.
Despreocupada, confundindo
o dia, danças, da colheita.)

Não. Nada disso me encanta.
Nem por isso estou por ti.
Mas por teu sapatinho de laço.

É pelo cremoso sapatinho, querida,
de laço, que, teu, me encantas.
E eu te sigo. Praças. Largos. Bares. Baile.

domingo, 17 de agosto de 2008

É doce morrer no Mar

para Dorival Caymmi

Ao longe no mar
uma jangada
contando as ondas
que Rosa te fez cantar
relembrou a Bahia
esticada entre coqueiros
sobre redes e canoas
Bahia de ondas
cortadas
como estas
mais tarde será agosto
em Itapuã.
Um menino baiano
sentado erguerá papagaios
ouvindo canções
que Rosa te fez cantar:
"Coqueiro de Itapuã,
Adeus Belém do Pará."
No alto
papagaio branco
ainda vai ter
o algodão de seus cabelos.
Desde hoje
morreu nas ondas
um assovio do mar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Apresentação

A Repartição da Flor desabrocha no trabalho o embrião da vivência poética, com performances ambientadas num espaço entre o escritório e a folga depois do expediente; atravessando as tensões e o tédio da vida moderna até o encontro da poesia como reinvenção do cotidiano, refletindo temas centrais como o amor e a morte, usa da ironia e da celebração para minar o campo do comodismo. Mistura interpretações de poemas próprios e de autores consagrados recortados entre pequenos diálogos e indagações.

"Do charco bege do ofício, condensa-se um cálido lírio. Dos bolorados arquivos, desborboleta um hibisco. Da cinza sequês da sala, vermelha, avulta-se a dália.”

A Repartição da Flor

Onde houver uma noite e uma estrela sem pressa
a pintar nos milênios do mar sua cor...
Onde houver festa e riso e cerveja na mesa
e faltar o estopim para um beijo de amor...
Onde houver um jardim prenhe a ponto de parto
e o florista de fogo provar seu valor...

Onde houver um olhar navegando a lembrança
por cirandas e rodas de um tempo sem dor...
Onde houver papelada e patrão e silêncio,
mas se ouvir pelas frestas canções sem pudor...
Onde houver tão-somente uma lágrima viva
remolhando a semente de um trabalhador...

Há de haver poesia! E José já dizia:
- Inicia no verso o Expediente da Flor!

terça-feira, 22 de abril de 2008

desfecho