segunda-feira, 30 de julho de 2012

sem sentido

           Foi no enterro de dona Vívida que sua curta vida deu um salto para o entendimento do que lhe vinha na alma. A senhora que havia sido como sua mãe desde pequeno estava, pela primeira vez, com o rosto opaco e a expressão distante. Nem por isso ele deixou de sentir nas rugas da velha vizinha os sentimentos de toda uma vida, todos com histórias de que nunca ouviria notícia. Todos os anos de dona Vívida pareciam, agora, dentro do caixão, um acúmulo de histórias sentidas até o osso, que foram tampadas aos olhos de suas últimas testemunhas.
O jovem ainda não chegava aos trinta anos, mas voltou caminhando do enterro sem esquecer o rosto velho cheio de marcas com a certeza de que tinha envelhecido. Essa certeza o assustou quando olhou sua imagem no espelho. Via-se já distante dos traços infantis. No entanto, sabendo de seu envelhecimento forçado horas antes durante o enterro, não via as marcas vitais impregnando seu rosto. Sua face estava intacta, mas sem a pureza da infância. Intacta e só. Depois das cerimônias funéreas da manhã, com o sepultamento das histórias bravamente sentidas de uma humilde senhora do bairro, somadas à certeza de um envelhecimento sem marcas, ele pareceu estar tomado pelo que desde nascença o acompanhava em silêncio. Seu rosto, como sua alma, estava intacto como a face da nuvem. Ele (pensou) nunca havia sentido nada. Nunca senti nada. Ao pensar e olhar sua imagem no espelho refletida, nenhuma expressão se constituiu. Um desespero o tomou sem que seu rosto pudesse dizer. Saiu de casa ainda sem saber que não voltaria nunca mais.
Pelas ruas ele seguia sem se dar conta do caminho, quando em sua mente a vida inteira se desenrolava sem que pudesse lembrar de algum momento sentido. As pessoas passavam calorosas na rua, sempre apressadas ou aposentadas, mas com o sentimento estampado no cenho. Naquele instante, ele invejou o suicida, a dona de casa frustrada, o velho inconformado e sozinho, todos que por ele cruzavam, e que sentiam, ainda que fosse o sentimento mais infame. Pois, ele nunca sentiu nada. O mundo passava em seus olhos e ele não sentia. A vida precisava ser diferente. Porém, havia entendido, mesmo naquela manhã, o terrível destino de não possuir nenhum sentimento sobre ela E sabendo ser incontornável, decidiu, ao menos, redimir sua vida criando a aparência de ter vivido.
Decidiu sujar-se pelas ruas, com o pó e o cimento das calçadas, como um menino que brinca ou volta de uma aventura. Porém, não sentia nada. Correu do subúrbio até o mar, onde sabia ser um lugar em que se vivesse plenamente. Lá, deixou o sol violar sua pele até deixar as marcas que nos remetem a histórias que se perdem nos caminhos do corpo.  Sem que vibrasse de dentro uma sensação, ele teve a certeza de que precisaria tatuar em seu corpo qualquer instante que pudesse ter sentido em chamas. Correu para lá sem saber o que marcaria em seu corpo. Nada, no calor do segundo, remetia a uma vida cheia de sentimentos. O tatuador sugeriu uma âncora, como um marinheiro que visitou mulheres nos portos do mundo. Ele não se convenceu, porque queria algo marcante e que definesse uma vida apaixonada e muito sentida.
Foi como um milagre que lembrou de quando leu o diário de seu falecido avô, funcionário público e reconhecido poeta do bairro. Buscava retirar da memória algumas daquelas palavras do avô. Porque, agora já tinha certeza, nenhuma imagem poderia dizer melhor do que um poema tatuado no corpo. Sinal concreto de uma vida sedenta e cheia de buscas. Só um verso poderia dizer de sentimentos inqueitos e angustiantes. Ah, os poetas vivem como ninguém imagina. Ele precisava estampar qualquer marca exasperada de quem, ao menos, por um segundo sentiu.
No fim, aceitou as muitas sugestões do tatuador. E correu pela areia já embriagado. Ninguém que tenha vivido deixou de passar no botequim da esquina e embeber-se de sabedorias locais em garrafas de vidro. Lá acertou dois homens com garrafadas, violentou a garçonete ao beijá-la, cantou em cima da mesa, foi expulso pelos bêbados restantes e rastejou pela sarjeta. Porém, não sentiu nada. Já não precisava sentir, porque, naquele instante, sabia estar fazendo tudo o que, de fato, os que são impelidos pelo furor da paixão fazem quando são tocados.
Soube, portanto, que já não voltaria para casa. Para levar a cabo sua ideia de redimir sua vida, não bastava ter versos marcados na pele e viver embriagado e ter o rosto de um cão sarnento. Ele precisaria, se quisesse esconder para sempre seu íntimo segredo de insensibilidade, cometer, à luz do dia, suicídio. Só assim, na hora de seu enterro, pensariam: “A vida para ele foi dura e sentida. Esse sentiu as mazelas da vida. Foi um aventureiro maldito...”. Quando, consciente de tirar a própria vida para torná-la grandiosa, ele chorou verdadeiramente por não sentir coisa alguma. Sua decisão foi indolor. Seu coração permaneceu intacto e, durante horas, observou os adolescentes apaixonados na areia, os hippies nômades, até os homens que moravam na rua e vendiam suas pequenas artes, e os viajantes maravilhados com o paraíso do Rio. Todos tinham histórias dos seus sentimentos nos olhos. Exceto ele, que a tudo olhava.
Do alto da ponte Rio-Niterói, ele lembrou do avô poeta e de todos os que viveram com a intensidade do trovão. E que, se ele não pôde sentir, fez num dia o que muitos fizeram verdadeiramente. No parapeito da ponte houve, porém, algo com que não contava. Do carro, algum jovem apaixonado gritou para assustar o suicida que, em vez de cair ao mar, quedou-se na pista com a face mais amedrontada do mundo. E, no meio dos carros, cumpriu-se sua pequena obra.
No dia seguinte ao enterro de dona Vívida, enterrou-se o menino que ela criara com muito apreço por sua família. O jovem de morte prematura fez com que toda a rua comparecesse à cerimônia. Todos certos de que ele era um herói de alguma tragédia cotidiana. Alguém que muito vivera. Porém, enterrou-se junto com ele um segredo que ninguém desconfiaria. Sua verdadeira história morreu silenciosa e sem notícia. Um jovem poeta com treze tatuagens, bêbado e com marcas de batom e sangue nas pontas dos dedos, sujo e marcado de sol. Qualquer um que morresse assim seria visto como quem viveu feito louco. Nenhuma das mil histórias acerca de sua morte diria que a vida por ele passou incólume.
Porém, quase tudo havia dado certo para o jovem insensível. Não fosse o terror na hora de sua morte, diante de um caminhão, tudo seria como o esperado e ele não morreria com a face completamente contorcida, que ninguem no velório evitou. Ele foi enterrado com a cara mais patética do mundo, daqueles que morrem ao temer uma barata.

Um comentário:

josé agapanto disse...

Um aventureiro maldito.