A Repartição da Flor completa 3 anos. Ainda ontem estávamos sentados - numa ladeira de santa teresa - sem saber no que ia dar. Nossa primeira apresentação, quando éramos seis, consistia num expediente de trabalho completo e que nos mandava rasgar muitos papéis. Depois incorporamos o hábito, continuamos rasgando, até que restaram três membros e alguns rascunhos da estréia. O terno escuro e a camisa clara por baixo, a pequena flor de guardanapo, noites e luas de um vago tempo passado. Tudo isso faz lembrar um filme em preto e branco, que pode até mesmo ser mudo, já que poemas são mais escritos que falados. Oh, não me perguntem o diretor: Orson Welles, Fellini, Bergman? Não saberia dizer, talvez não chegue a cinema, mas apenas uma fotografia meio desgastada pelo tempo. No princípio acreditamos, ingenuamente, que essa indumentária acompanhava nosso papel de funcionários, e só depois descobrimos que era um luto. Já Fernando Pessoa não chegou tarde assim, ele sempre esteve ali, no amontoado de poemas, e se diferenciava de nós pela sua cartola. Era guardador de livros ou tradutor de cartas comerciais - de qualquer forma produzia papéis que poderíamos ter rasgado. Ele desejou o mundo, por isso fez a melhor poesia inspirada de nossa língua no século XX, por isso o vício em álcool e as viagens de Álvaro de Campos. Aliás, nunca poderia ter saído de sua escrivaninha. Quanto à gente, aprendemos um pouco sobre essas coisas em petrópolis. O que se parece mais com acordar numa garrafa de black label? Só um verso como este "meu coração é um balde despejado". Me lembro de um de nós acordar e ficar lendo todos os ingredientes daquele uísque, e depois de tecermos considerações eu abrir a janela. Sobre o lago do quintandinha a névoa fluía feito a marca-d'água, o céu estava perfeitamente branco, e a folhagem verde-escura parecia esquecer que precisava se ligar ao chão. É claro que poderia estar na escócia, pensei. Álvaro de Campos se formou em glasgow, Johnnie Walker é meu xará, estamos abaixo dos 10ºC. No fim, tudo terminou com uma quebra em nossas contas bancárias, o que não é mal, se pensarmos o que Lady Macbeth fez com toda aquela gente nesse país. Ah, creio que foi a partir daí que abandonamos as horas de trabalho: se é para representar, melhor que seja do final do expediente pra lá. Agora logo no início nós colocamos a garrafa na mesa, temos os poemas, o violão, e nunca mais foi preciso rasgar papel nenhum.
domingo, 22 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Dante Milano

No Rio de Janeiro dos
anos 1920, avenida Almirante Barroso nº 18, funcionava um
restaurante chamado Reis; casa de motoristas e carroceiros, recebia diariamente
a visita de alguns amigos, entre eles Manuel Bandeira, Jayme Ovalle e Dante
Milano. O prato, "bem baratinho", era bife à moda e entrava de tudo,
com muito pão e arroz. Mais tarde passou a receber jornalistas, escritores, boêmios.
Dantinho, como Bandeira o chamava, já fazia seus estudos de latim,
rigorosamente, sem o qual sua poesia não seria a mesma. Mas também frequentava
o mangue, a Lapa e os carnavais do Palace Hotel; viveu todas aquelas
bem-aventuranças que anos depois fruiriam positivamente na história cultural do
nosso país: a idade de ouro do samba, o Rio de Janeiro dos cinemas e cabarés,
os tomates do modernismo, e o que considero triunfo particular daquela geração:
o fim dos cafés parnasianos para o início das rodas de uísque. (Daí entrariam
Vinicius e a casa de Aníbal Machado). Apesar disso, Dante Milano não se ateve
aos acontecimentos, "c'est la mer qui m’intéresse", e
escrevendo apenas o mesmo livro em toda vida, não mencionou nenhum deles. Essa
poesia, em suas leis interiores, parece perfeita, límpida, meditada; não sendo
à toa as influências dos mestres renascentistas, e nisso inclui-se as formas de
Piero della Francesca, por exemplo. "Em literatura tudo que traz escrito
na frente: beleza – é beleza falsa", foi o que disse Leopardi e me parece
a maior lição que dele tirou Dante Milano. Mas, sem dúvida, em seus poemas, a
noite também cai, apesar da harmonia de suas vogais e da clareza do seu estilo,
um lento desespero arrefece a luminosidade de seus versos. Nota-se bem essa
noite ao lado, intuída nos olhos pretos tapados por Portinari. Se João Cabral
escrevia ao palo seco dos sevilhanos, o verso desse carioca é seco não de
alguma lira, mas seco do italiano áspero e vulgar dos florentinos do medievo.
Minha edição das suas obras completas eu achei num sebo da Praça XV, "bem
baratinha", e frequentemente a tenho revisto em muitos aqui pelo Rio de
Janeiro. Andando pelo Centro, agora nas férias, passei pela Almirante Barroso e
me veio pensar nessa toada de amigos; hoje essa avenida é irreconhecível se
compararmos ao que foi no tempo do Reis, quando ainda existia o morro de Santo
Antônio, retirado na década de 50. O único prédio que subsiste é o antigo liceu
literário, na esquina com Senador Dantas. Alguma nostalgia prende minhas
pupilas sempre que passo ali com meu livro na mochila. Fico me perguntando como
não se sentia Dantinho entre tanta folia e perdição clássica. Que silencioso
céu ele não buscava enquanto punha e ouvia modinhas no violão de Jayme Ovalle,
enquanto disputava com Sérgio Buarque velhos jogos eruditos na mesa dos
botequins. Escreveu, por final, um único, variado e mesmo livro. “Poesias”.
Perscrutando o esboço arquitetônico de suas estrofes e a lentidão tortuosa de
suas pinceladas, de imagens plásticas, recuo ao seu solipsismo erudito, sua
fama de artesão incansável, para ver tudo se desmentir num pequeno trecho,
escrito por ele, sobre o amigo do peito – "Quem não acredita em
inspiração, não conheceu Jayme Ovalle". Foi aí que se entregou, e nada
poderá negar que a matéria de sua alta poesia talvez tenha saído de porres
caducos no Palace Hotel. De aventuras insidiosas no mangue. Passeios
melancólicos sob os oitis do Centro da cidade. Está claro, a fé do nosso poeta
também recaía sobre a inspiração. "Correi, correi, ó versos sem
palavras...".
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Aniversário de Flamboyant
Hoje dia 22 de julho de 2010 quem faz aniversário é o João, Teófilo, Flamboyant. Continuando os motivos do mar faço uma homenagem castellana ao amigo, neto de mergulhador e de Pernambuco, cria das ruas praianas de Macaé, além de ilustre citadino da capital São Sebastião do Rio de Janeiro. Traduzi, para tanto, um poema de Federico García Lorca del Libro de poemas.
LA BALADA DEL AGUA DEL MAR A BALADA DA ÁGUA DO MAR
–¿Qué vendes, oh joven turbia – O que vendes, oh jovem turva
con los senos al aire? com teus seios aos ares?
–Vendo, señor, el agua – Vendo, senhor, a água
de los mares. dos mares.
–¿Qué llevas, oh negro joven, – Que levas, oh negro jovem,
mezclado con tu sangre? mesclado ao teu sangue?
–Llevo, señor, el agua – Levo, senhor, a água
de los mares. dos mares.
–Esas lágrimas salobres – Essas lágrimas salobres,
¿de dónde vienen, madre? de onde vêm, mãe?
–Lloro, señor, el agua – Choro, senhor, a água
de los mares. dos mares.
–Corazón, y esta amargura – Coração, e esta amargura
seria, ¿de dónde nace? séria, de onde nasce?
–¡Amarga mucho el agua – Amarga muito a água
de los mares! dos mares!
El mar O mar
sonríe a lo lejos. Sorrindo ao léu.
Dientes de espuma, Dentes de espuma,
labios de cielo. lábios de céu.
LA BALADA DEL AGUA DEL MAR A BALADA DA ÁGUA DO MAR
El mar O mar
sonríe a lo lejos. Sorrindo ao léu.
Dientes de espuma, Dentes de espuma,
labios de cielo. lábios de céu.
sonríe a lo lejos. Sorrindo ao léu.
Dientes de espuma, Dentes de espuma,
labios de cielo. lábios de céu.
con los senos al aire? com teus seios aos ares?
–Vendo, señor, el agua – Vendo, senhor, a água
de los mares. dos mares.
–¿Qué llevas, oh negro joven, – Que levas, oh negro jovem,
mezclado con tu sangre? mesclado ao teu sangue?
–Llevo, señor, el agua – Levo, senhor, a água
de los mares. dos mares.
–Esas lágrimas salobres – Essas lágrimas salobres,
¿de dónde vienen, madre? de onde vêm, mãe?
–Lloro, señor, el agua – Choro, senhor, a água
de los mares. dos mares.
–Corazón, y esta amargura – Coração, e esta amargura
seria, ¿de dónde nace? séria, de onde nasce?
–¡Amarga mucho el agua – Amarga muito a água
de los mares! dos mares!
El mar O mar
sonríe a lo lejos. Sorrindo ao léu.
Dientes de espuma, Dentes de espuma,
labios de cielo. lábios de céu.
Federico García Lorca, 1919
(tradução de José Agapanto)
(tradução de José Agapanto)
terça-feira, 13 de julho de 2010
Introdução à maior aventura de todos os tempos
No fundo, não importa se estamos à procura ou não – a aventura sempre bate à porta. Seja o som cada vez menos distante das bombas do inimigo que avança ou o folhear de um álbum de família antigo que nos traz a dimensão do personagem épico que, insuspeitadamente, todos somos. Seja a história bêbada de um velho que ao balcão revela o caminho para uma terra fantástica ou a visita do amigo que propõe um passeio náutico no feriado. Seja uma carta de amor que entrega aos nossos cuidados todo o poder e a fragilidade do confidente desarmado a que bem queremos ou o desafio do homem atrás do espelho. Seja um sonho, um passarinho, um livro. Um bruxuleio reluzente no escuro. Um baú. Uma idéia. A aventura sempre chega ao nosso espírito e nos convida, nesse idioma próprio ao coração, à mais incrível viagem de nossas vidas.
Se recusarmos o convite imprevisto – a opção menos exigente de todas – seremos fantasmas para sempre. Mas se aceitarmos, ah, se aceitarmos, teremos a chance de conquistar o sentimento que só a algumas aves e seres marinhos é dado e aos cavalos selvagens e aos animais que migram e, não tendo uma terra sua, têm por lar o próprio mundo.
Essa inigualável sensação de desimpedimento, de partir sem olhar para trás, de mergulhar de cabeça na água fria, é a coragem e o desprendimento sem os quais nossa liberdade não passa da vencida liberdade de cultuar intenções. E isso nunca bastou para saciar o que há de melhor em nós.
Precisamos de história, de histórias e da História. Se acaso existe uma alma que congregue todos os homens e mulheres de todos os tempos, a alma da humanidade, ela só pode ser a História. Mas, ao mesmo tempo, as histórias, veias e artérias da grande humana, são também o alimento de que cada um de nós se nutre e a argamassa com que construímos nossos destinos pessoais. Sem história, nem mesmo o caráter pode, de fato, existir.
E, finalmente, a história é a única chance do amor (o critério de justiça da felicidade). Dela nasce, nela floresce e com ela se confunde. E aí reside um dos custos inexoráveis das grandes jornadas: quando o amor revelado não encontra caminho adiante, deixa na memória a sua história e não há como separá-la de todas as lembranças vividas porque nós e todo nosso aprendizado também somos feitos dessa mesma e inevitável história. Assim, carregamos o amor que tivemos, de um jeito ou de outro, pela vida inteira e, até o fim dos nossos dias, de alguma forma, sentimos saudades. No plural. Saudades.
Toda história que valha a pena viver é também uma história de amor e toda história de amor é a história maravilhosa de uma viagem e, por isso e por não sermos deuses, nos deixa saudades históricas.
Essa é a história que me coube contar. A história de uma jornada imprevista. A história da descoberta da vida. A história de um grande amor. Uma aventura que bateu à minha porta e que, quando abri, irresistivelmente, me levou com ela.
Essa inigualável sensação de desimpedimento, de partir sem olhar para trás, de mergulhar de cabeça na água fria, é a coragem e o desprendimento sem os quais nossa liberdade não passa da vencida liberdade de cultuar intenções. E isso nunca bastou para saciar o que há de melhor em nós.
Precisamos de história, de histórias e da História. Se acaso existe uma alma que congregue todos os homens e mulheres de todos os tempos, a alma da humanidade, ela só pode ser a História. Mas, ao mesmo tempo, as histórias, veias e artérias da grande humana, são também o alimento de que cada um de nós se nutre e a argamassa com que construímos nossos destinos pessoais. Sem história, nem mesmo o caráter pode, de fato, existir.
E, finalmente, a história é a única chance do amor (o critério de justiça da felicidade). Dela nasce, nela floresce e com ela se confunde. E aí reside um dos custos inexoráveis das grandes jornadas: quando o amor revelado não encontra caminho adiante, deixa na memória a sua história e não há como separá-la de todas as lembranças vividas porque nós e todo nosso aprendizado também somos feitos dessa mesma e inevitável história. Assim, carregamos o amor que tivemos, de um jeito ou de outro, pela vida inteira e, até o fim dos nossos dias, de alguma forma, sentimos saudades. No plural. Saudades.
Toda história que valha a pena viver é também uma história de amor e toda história de amor é a história maravilhosa de uma viagem e, por isso e por não sermos deuses, nos deixa saudades históricas.
Essa é a história que me coube contar. A história de uma jornada imprevista. A história da descoberta da vida. A história de um grande amor. Uma aventura que bateu à minha porta e que, quando abri, irresistivelmente, me levou com ela.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Vinicius de Moraes
Hoje, trinta anos depois, Vinicius foi lembrado por jornais, pequenos eventos, chorinhos quem sabe. Morreu há trinta anos, com saudades da vida, e foi o nosso poeta carioca. Foi um poeta "em paz com a sua cidade" como disse Otto Lara, por isso era preciso o violão. Ontem, passando na orla, vi de longe o seu antigo mar. Fazia um vento frio, chovia. Depois, pensei que se ensinou algo, não foi o amor, porque ele apenas, humildemente, fez o que podia: cantou-o. E amor, não se ensina. Vinicius ensinou aquele mar. Ele, que começou a vida ali, numa casa na Ilha do Governador, e que sobre o Atlântico escreveu Soneto de Fidelidade, hoje é um guarda-sol em que deitamos à sombra ou uma garrafa de champanhe que se abre nas bodas ou um barco.É que mal sabemos, mas quando na areia, pasmos, naufragamos: – Vinicius! (alguém diria) está ali, bem perto de nós, e o balanço das ondas, que começou antes e antes.
Um sujeito qualquer poderia repetir: – Mas e o amor? Bem, o amor é tudo, mas ao que completou Tom Jobim "O resto é mar..."
domingo, 20 de junho de 2010
Charles Baudelaire
Escreve Baudelaire a Ancelle, em carta: "Você seria muito criança para esquecer que a frança tem horror à poesia, à verdadeira poesia?" E pouco adiante: "Exceto Chateaubriand, Balzac, Stendhal, Mérimée, de Vigny, Flaubert, Banville, Gautier, Leconte de Lisle, toda gentalha moderna me causa horror. Vossos liberais, horror. O vício, horror. O estilo atual, horror. O progresso, horror. Não me fale mais dos dizedores de nadas."
Curitiba
Está certo que Curitiba seria a "base social do fascismo" segundo o João Pedro; com aquela vida urbana meio artificial, o largo da Ordem, skin heads. Mas gostei enfim, as ruas na madrugada diziam algo de uma roleta ou de um subúrbio violento da Polônia. E uma alegria fiel, era o que tínhamos, sem dinheiro, desejando o inverno e tudo o que havia por debaixo de suas peles de lã, padecemos de acertar muito a roleta e depois sair de mãos abanando. Na viagem de volta cantamos o aniversário do João no ônibus mesmo. Chegando ao Rio, estava tudo certo, iríamos à praia novamente. (diário, julho de 2007 - foto: noite de Curitiba)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
a tarde se esvai
com ela o céu adensa em movimento suave
tudo no ar parece seguir num tempo que não o nosso
as aves - como nós
seres a vagar no sem fim do espaço
leves
(- oh deus, tão leves)
levando para a terra, com mãos de fogo,
a substância sólida de nossos ninhos...
aquecer o amor. - é possível sentir
as aves movendo suas longas asas
num tempo espesso.
a tarde a condensar o céu
e o meu tempo já não é tempo
é vôo
com ela o céu adensa em movimento suave
tudo no ar parece seguir num tempo que não o nosso
as aves - como nós
seres a vagar no sem fim do espaço
leves
(- oh deus, tão leves)
levando para a terra, com mãos de fogo,
a substância sólida de nossos ninhos...
aquecer o amor. - é possível sentir
as aves movendo suas longas asas
num tempo espesso.
a tarde a condensar o céu
e o meu tempo já não é tempo
é vôo
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Aforismos
– A boa conversa está mais próxima da arte que as literaturas de segunda ordem.
– João Cabral fazia versos de ferro, seus seguidores fazem de ferrugem.
– Quando ela vier (a morte), nunca terá vindo.
– Perigo é quando sobe a arquitetura à cabeça dos poetas; constroem casas perfeitas, mas onde nenhum homem viverá.
– Minas é o mais metafísico de nossos estados.
– Então é esta a natureza do poeta, desejar o mundo?
Especial de amigos, sobre uísque:
– A civilização começou com a destilação. (William Faulkner)
– O tempo andou mexendo com a gente, sim. ( J. M Poranga, sobre os 18 anos de uma garrafa)
– Cumpre seu papel pra humanidade. (Teófilo de Flamboyant)
– A poesia é algo tão concentrado quanto uísque, com um alto teor alcoólico. Pode-se escrever um romance de 400 páginas. Um livro de poesia de 400 páginas é inviável. (João Cabral de Melo Neto)
– O importante não é você gostar do uísque, mas o uísque gostar de você. (Jaime Ovalle)
– O uísque e a liberdade andam juntos. (Robert Burns)
– João Cabral fazia versos de ferro, seus seguidores fazem de ferrugem.
– Quando ela vier (a morte), nunca terá vindo.
– Perigo é quando sobe a arquitetura à cabeça dos poetas; constroem casas perfeitas, mas onde nenhum homem viverá.
– Minas é o mais metafísico de nossos estados.
– Então é esta a natureza do poeta, desejar o mundo?
Especial de amigos, sobre uísque:
– A civilização começou com a destilação. (William Faulkner)
– O tempo andou mexendo com a gente, sim. ( J. M Poranga, sobre os 18 anos de uma garrafa)
– Cumpre seu papel pra humanidade. (Teófilo de Flamboyant)
– A poesia é algo tão concentrado quanto uísque, com um alto teor alcoólico. Pode-se escrever um romance de 400 páginas. Um livro de poesia de 400 páginas é inviável. (João Cabral de Melo Neto)
– O importante não é você gostar do uísque, mas o uísque gostar de você. (Jaime Ovalle)
– O uísque e a liberdade andam juntos. (Robert Burns)
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Soneto dos amantes desvairados.
Nós somos amantes porque amamos.
O termos ou não nosso amor ao lado
não torna improváveis os nossos planos:
- Amamos por nós e por nosso amado!
E nossa amação, sem igual no mundo,
é tal, que em estado febril constante,
buscamos no amor os porquês profundos
e ao fim de um amor, mais amor que antes.
Só vemos no amor, para o amor, a cura,
mas nunca vulgares, nem vãos, nem vis.
Nós damos a vida ao amar assim!
E, assim, nós "morremos", igual se diz,
por todas as forças que o amor conjura,
em cada romance que chega ao fim.
O termos ou não nosso amor ao lado
não torna improváveis os nossos planos:
- Amamos por nós e por nosso amado!
E nossa amação, sem igual no mundo,
é tal, que em estado febril constante,
buscamos no amor os porquês profundos
e ao fim de um amor, mais amor que antes.
Só vemos no amor, para o amor, a cura,
mas nunca vulgares, nem vãos, nem vis.
Nós damos a vida ao amar assim!
E, assim, nós "morremos", igual se diz,
por todas as forças que o amor conjura,
em cada romance que chega ao fim.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
Sobre teus pés de Portinari
Eu gosto dos teus pés,
que levam teu sorriso às pessoas.
Lembram o trabalho daqueles rizicultores de Yunnan, na China,
que metem, na lama, as mudinhas do que será
sangue nos ossos e nuvem nos céus das bocas.
Eu gosto dos teus pés:
mantêm distância apropriada
entre o futuro do mundo
(que incubas num ninho logo acima do teu nariz)
e o passo concreto que dás.
O sonho ganha tempo para percorrer teu corpo
até alcançar a forma necessária
de um próximo passo.
Acho bonitos os teus pés.
São fortes e bem-humorados.
Queriam ser pés de soldado e palhaço.
Depois, viram que não era bem isso.
E, então, descobriram que poderiam
(se fosse preciso, até a velhice)
ser pés de criança descalça.
que levam teu sorriso às pessoas.
Lembram o trabalho daqueles rizicultores de Yunnan, na China,
que metem, na lama, as mudinhas do que será
sangue nos ossos e nuvem nos céus das bocas.
Eu gosto dos teus pés:
mantêm distância apropriada
entre o futuro do mundo
(que incubas num ninho logo acima do teu nariz)
e o passo concreto que dás.
O sonho ganha tempo para percorrer teu corpo
até alcançar a forma necessária
de um próximo passo.
Acho bonitos os teus pés.
São fortes e bem-humorados.
Queriam ser pés de soldado e palhaço.
Depois, viram que não era bem isso.
E, então, descobriram que poderiam
(se fosse preciso, até a velhice)
ser pés de criança descalça.
quarta-feira, 17 de março de 2010
carnaval para j. p
Orava a nuvem a consolação
no mar, martirizando no poeta
uma canção. Raiava quarta-feira
já, lembrou Recife, a serra e um verso
de Drummond. Pela noite quis de amor
matar e pela tarde quis de amor
perdão. Eram os barcos que partiam
aqui e lá, mãos de mulher, dores de sim
de não; fevereiro, sopra seus barcos
e solta, como a flauta o sol no ar;
solas de sapato, boi, baco, brilha
um balão, oh padre do paraná.
Nuvens do céu, sem deus, desçam ao chão,
o tempo é algo quente como um lar.
no mar, martirizando no poeta
uma canção. Raiava quarta-feira
já, lembrou Recife, a serra e um verso
de Drummond. Pela noite quis de amor
matar e pela tarde quis de amor
perdão. Eram os barcos que partiam
aqui e lá, mãos de mulher, dores de sim
de não; fevereiro, sopra seus barcos
e solta, como a flauta o sol no ar;
solas de sapato, boi, baco, brilha
um balão, oh padre do paraná.
Nuvens do céu, sem deus, desçam ao chão,
o tempo é algo quente como um lar.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
A emocionante formatura do amigo poeta Jimmy Charles Mendes, certo verão, na Faculdade de Letras da UFRJ.
Então disse o sol:
“Bem, cá estamos, meu velho.
Tu e eu formamos uma dupla.
Voemos, poeta,
à altura das águias.
Cantemos
para espantar as trevas do mundo.
Eu derramo luz
e tu outro tanto fazes
esparzindo teus versos”.
(Maiakóvski)
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Menor poema
Pernambuco, o que digo que já não disseste
no ribombo da alfaia, em voz republicana?
Teu céu? Talhado à faca de incontáveis preces
por teus filhos de barro, pranto, honra e cana?
Tua noite? Seguida pelo Caçador
(uns dirão, pra matá-la, e outros, por amor)?
Tua manhã? Degredo de estrela e fanal?
O nó cego no peito ao se ouvir o "imortal"?
Inevitável, já, deixar que tu me invadas
como o sabor e o beijo e as novas palavras...
Desnecessário, já, dizer que tu venceste.
Não me cabe medir na arte as tuas plagas.
Impossível meter num verso as tuas águas
aquentadas, saladas: entes do ser Leste.
no ribombo da alfaia, em voz republicana?
Teu céu? Talhado à faca de incontáveis preces
por teus filhos de barro, pranto, honra e cana?
Tua noite? Seguida pelo Caçador
(uns dirão, pra matá-la, e outros, por amor)?
Tua manhã? Degredo de estrela e fanal?
O nó cego no peito ao se ouvir o "imortal"?
Inevitável, já, deixar que tu me invadas
como o sabor e o beijo e as novas palavras...
Desnecessário, já, dizer que tu venceste.
Não me cabe medir na arte as tuas plagas.
Impossível meter num verso as tuas águas
aquentadas, saladas: entes do ser Leste.
domingo, 20 de dezembro de 2009
"Porque pulsa do amor a dura prova..."
Para Elis
Porque pulsa do amor a dura prova
vai pungir no poema a pena firme.
pra seguir com o rio que renova
e de novo, entre as águas, o afirme!
Se livres somos nós e eu quero tudo
quanto pode um ser errante... mas
se escrevo um verso esparso e mudo
é só para entregar-te pleno. Mas
se rompe em chuva fria o desconcerto
de Camões e de toda humanidade,
sem saudades da vida venho certo
da letra desenhando eternidade
no céu rubro, do Verbo concertado.
Tê-la, então, no presente, do meu lado.
Porque pulsa do amor a dura prova
vai pungir no poema a pena firme.
pra seguir com o rio que renova
e de novo, entre as águas, o afirme!
Se livres somos nós e eu quero tudo
quanto pode um ser errante... mas
se escrevo um verso esparso e mudo
é só para entregar-te pleno. Mas
se rompe em chuva fria o desconcerto
de Camões e de toda humanidade,
sem saudades da vida venho certo
da letra desenhando eternidade
no céu rubro, do Verbo concertado.
Tê-la, então, no presente, do meu lado.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Marc Chagall
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
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