sexta-feira, 9 de julho de 2010

Vinicius de Moraes

Hoje, trinta anos depois, Vinicius foi lembrado por jornais, pequenos eventos, chorinhos quem sabe. Morreu há trinta anos, com saudades da vida, e foi o nosso poeta carioca. Foi um poeta "em paz com a sua cidade" como disse Otto Lara, por isso era preciso o violão. Ontem, passando na orla, vi de longe o seu antigo mar. Fazia um vento frio, chovia. Depois, pensei que se ensinou algo, não foi o amor, porque ele apenas, humildemente, fez o que podia: cantou-o. E amor, não se ensina. Vinicius ensinou aquele mar. Ele, que começou a vida ali, numa casa na Ilha do Governador, e que sobre o Atlântico escreveu Soneto de Fidelidade, hoje é um guarda-sol em que deitamos à sombra ou uma garrafa de champanhe que se abre nas bodas ou um barco.
É que mal sabemos, mas quando na areia, pasmos, naufragamos: – Vinicius! (alguém diria) está ali, bem perto de nós, e o balanço das ondas, que começou antes e antes.
Um sujeito qualquer poderia repetir: – Mas e o amor? Bem, o amor é tudo, mas ao que completou Tom Jobim "O resto é mar..."

domingo, 20 de junho de 2010

Charles Baudelaire

Escreve Baudelaire a Ancelle, em carta: "Você seria muito criança para esquecer que a frança tem horror à poesia, à verdadeira poesia?" E pouco adiante: "Exceto Chateaubriand, Balzac, Stendhal, Mérimée, de Vigny, Flaubert, Banville, Gautier, Leconte de Lisle, toda gentalha moderna me causa horror. Vossos liberais, horror. O vício, horror. O estilo atual, horror. O progresso, horror. Não me fale mais dos dizedores de nadas."

Curitiba

Está certo que Curitiba seria a "base social do fascismo" segundo o João Pedro; com aquela vida urbana meio artificial, o largo da Ordem, skin heads. Mas gostei enfim, as ruas na madrugada diziam algo de uma roleta ou de um subúrbio violento da Polônia. E uma alegria fiel, era o que tínhamos, sem dinheiro, desejando o inverno e tudo o que havia por debaixo de suas peles de lã, padecemos de acertar muito a roleta e depois sair de mãos abanando. Na viagem de volta cantamos o aniversário do João no ônibus mesmo. Chegando ao Rio, estava tudo certo, iríamos à praia novamente. (diário, julho de 2007 - foto: noite de Curitiba)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago, 16-11-1922 / 18-06-2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Boudin

sábado, 8 de maio de 2010

a tarde se esvai
com ela o céu adensa em movimento suave
tudo no ar parece seguir num tempo que não o nosso
as aves - como nós
seres a vagar no sem fim do espaço
leves
(- oh deus, tão leves)
levando para a terra, com mãos de fogo,
a substância sólida de nossos ninhos...
aquecer o amor. - é possível sentir
as aves movendo suas longas asas
num tempo espesso.

a tarde a condensar o céu
e o meu tempo já não é tempo
é vôo

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Aforismos

– A boa conversa está mais próxima da arte que as literaturas de segunda ordem.

– João Cabral fazia versos de ferro, seus seguidores fazem de ferrugem.

– Quando ela vier (a morte), nunca terá vindo.

– Perigo é quando sobe a arquitetura à cabeça dos poetas; constroem casas perfeitas, mas onde nenhum homem viverá.

– Minas é o mais metafísico de nossos estados.

– Então é esta a natureza do poeta, desejar o mundo?

Especial de amigos, sobre uísque:

– A civilização começou com a destilação. (William Faulkner)

– O tempo andou mexendo com a gente, sim. ( J. M Poranga, sobre os 18 anos de uma garrafa)

– Cumpre seu papel pra humanidade. (Teófilo de Flamboyant)

– A poesia é algo tão concentrado quanto uísque, com um alto teor alcoólico. Pode-se escrever um romance de 400 páginas. Um livro de poesia de 400 páginas é inviável. (João Cabral de Melo Neto)

– O importante não é você gostar do uísque, mas o uísque gostar de você. (Jaime Ovalle)

– O uísque e a liberdade andam juntos. (Robert Burns)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Soneto dos amantes desvairados.

Nós somos amantes porque amamos.
O termos ou não nosso amor ao lado
não torna improváveis os nossos planos:
- Amamos por nós e por nosso amado!

E nossa amação, sem igual no mundo,
é tal, que em estado febril constante,
buscamos no amor os porquês profundos
e ao fim de um amor, mais amor que antes.

Só vemos no amor, para o amor, a cura,
mas nunca vulgares, nem vãos, nem vis.
Nós damos a vida ao amar assim!

E, assim, nós "morremos", igual se diz,
por todas as forças que o amor conjura,
em cada romance que chega ao fim.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Manuel Bandeira (Portinari)


J. M Poranga e José Agapanto, num dia de cerimônia

quinta-feira, 18 de março de 2010

Sobre teus pés de Portinari

Eu gosto dos teus pés,
que levam teu sorriso às pessoas.
Lembram o trabalho daqueles rizicultores de Yunnan, na China,
que metem, na lama, as mudinhas do que será
sangue nos ossos e nuvem nos céus das bocas.

Eu gosto dos teus pés:
mantêm distância apropriada
entre o futuro do mundo
(que incubas num ninho logo acima do teu nariz)
e o passo concreto que dás.
O sonho ganha tempo para percorrer teu corpo
até alcançar a forma necessária
de um próximo passo.

Acho bonitos os teus pés.
São fortes e bem-humorados.
Queriam ser pés de soldado e palhaço.
Depois, viram que não era bem isso.
E, então, descobriram que poderiam
(se fosse preciso, até a velhice)
ser pés de criança descalça.

quarta-feira, 17 de março de 2010

carnaval para j. p

Orava a nuvem a consolação
no mar, martirizando no poeta
uma canção. Raiava quarta-feira
já, lembrou Recife, a serra e um verso
de Drummond. Pela noite quis de amor
matar e pela tarde quis de amor
perdão. Eram os barcos que partiam
aqui e lá, mãos de mulher, dores de sim
de não; fevereiro, sopra seus barcos
e solta, como a flauta o sol no ar;
solas de sapato, boi, baco, brilha
um balão, oh padre do paraná.
Nuvens do céu, sem deus, desçam ao chão,
o tempo é algo quente como um lar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A emocionante formatura do amigo poeta Jimmy Charles Mendes, certo verão, na Faculdade de Letras da UFRJ.


Então disse o sol:
“Bem, cá estamos, meu velho.
Tu e eu formamos uma dupla.
Voemos, poeta,
à altura das águias.
Cantemos
para espantar as trevas do mundo.
Eu derramo luz
e tu outro tanto fazes
esparzindo teus versos”.

(Maiakóvski)


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Menor poema

Pernambuco, o que digo que já não disseste
no ribombo da alfaia, em voz republicana?
Teu céu? Talhado à faca de incontáveis preces
por teus filhos de barro, pranto, honra e cana?

Tua noite? Seguida pelo Caçador
(uns dirão, pra matá-la, e outros, por amor)?
Tua manhã? Degredo de estrela e fanal?
O nó cego no peito ao se ouvir o "imortal"?

Inevitável, já, deixar que tu me invadas
como o sabor e o beijo e as novas palavras...
Desnecessário, já, dizer que tu venceste.

Não me cabe medir na arte as tuas plagas.
Impossível meter num verso as tuas águas
aquentadas, saladas: entes do ser Leste.

domingo, 20 de dezembro de 2009

"Porque pulsa do amor a dura prova..."

Para Elis

Porque pulsa do amor a dura prova
vai pungir no poema a pena firme.
pra seguir com o rio que renova
e de novo, entre as águas, o afirme!

Se livres somos nós e eu quero tudo
quanto pode um ser errante... mas
se escrevo um verso esparso e mudo
é só para entregar-te pleno. Mas

se rompe em chuva fria o desconcerto
de Camões e de toda humanidade,
sem saudades da vida venho certo

da letra desenhando eternidade
no céu rubro, do Verbo concertado.
Tê-la, então, no presente, do meu lado.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Marc Chagall

Uma noite russa caiu sobre o violino,
de súbito
estavam íntimos cegos e noivos.
Apenas ele seguiu vermelho,
sem doer um só verso,
amou.

Pendia da lua o violinista:
– pareceu-lhe mágico e mudo como um salto de bailarina.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

Jayme Ovalle

Ovalle, irmãozinho; a noite fechou como um piano cansado. Da janela, estive olhando: a saleta de orquestra, allegro das luzes no bonde e o poste. Até o gato de rua sabe fazer esse caminho de ferro, que o bonde faz (esquece) e vai seguindo, seguindo. Você também não parou, irmãozinho – foi. Depois, o gole deixou num gordo a impressão de Haydn, ele só passava; “meninos” – a senhorinha – “este é aquele Minuetto, vale nota”. Para o músico da saleta Haydn era um enigma sem mistério (para você foi mistério somente). Da janela, estive olhando: o amarelo do poste vira uma estrela de madrugada; foi você? sei que os poetas carpiram, o samba quebrado rolou e até a Marrecas foi ninho (para duas mocinhas). Viver é coisa grande.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Licores

De vez em quando, a estante dos licores
afasta o bom rabino dos louvores
e arrisca a gola branca a novas cores.
Uns cálices depois, certos horrores

vernáculos das mentes de senhores
gentis demais às damas nos favores
escapam. São suspiros, são calores
fingidos, sob a rolha, de sabores

de frutas e ervas finas. Pois imunes
aos anos, apurando seus queimores,
as caldas melindrosas dançam tango

nas vulvas vidraçadas com os numes,
que ganham vida e tomam corpo quando
o bom rabino as vem amar. Licores.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Soneto para um novo amor

Distante dos meus deuses naturais,
temendo ter traído minha pátria,
por blocos de antiquados carnavais
errei, mas quem assim já não errara?

Sentei-me à beira-mar e tive um frio
que foi como se eu não vestisse nada.
Na orla, à noite, mil luzes do Rio
dançavam com as ondas e eu chorava.

Mas quem já não morrera assim, amigos?
E quem já não jurara à lua clara:
- Jamais um novo amor será cantado!

Só sei que algum calor aos arrepios
pôs fim e um querubim da Guanabara
secou meus olhos. Eu jurava errado.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Amor em dialética

Tudo quanto acresce faz crescer. Transforma,
no brindar dos corpos, e deforma e mata,
a conformidade duma antiga forma,
dando luz a novas, netas da passada.

Essas somas causam sempre um certo dó,
confundindo à força o que é de dentro e o fora:
dores de fornalha, de martelo e mó
que vão duvidar se é benfeitora a soma.

Mas se tudo quanto assoma fere e muda
o horizonte e a ilha de antes de somar,
a fusão das partes logo arvora uma
recriada praia, que esmerada e forte,

será tão plural quanto for singular.